top of page

O que deseja o ser humano?

Foto do escritor: Bruno Jones
Bruno Jones
há 3 horas
19 min de leitura


O Veda chama isso de puruṣārtha


Puruṣārtha significa, literalmente, os objetivos do ser humano. Aquilo que mais prezamos na vida, para nos mantermos felizes. O Veda os classificam em quatro


Um adendo importante sobre o tema, antes de continuarmos, é darmo-nos conta de como estes objetivos mudaram de significado com o passar do tempo.


É interessante sabermos que os três primeiros puruṣārthas aparecem no Veda, alguns séculos antes do início da Era Comum; portanto, relacionados, sem dúvida, à sua primeira porção, o Karma-kāṇḍa.


Mokṣa, portanto, é uma adição tardia, relacionada ao Jñāna-kāṇḍa.


Portanto, se olharmos para a primeira porção do Veda, artha apontava para os meios necessários para a realização do ritual védico. Kāma era satisfação obtida através destes rituais e, dharma, o mérito conquistado pela execução destes.


Nenhum destes objetivos (os três primeiros) deviam ser perseguidos sem a observância do dharma (aqui, significado a forma justa ou adequada de se comportar ou agir).


Por isso, com o passar do tempo, textos forma compostos sobre cada um dos Puruṣārthas, tais como o Artha Śāstra (atribuído a Kauṭilya - séc 3-4 d.C.), Kāma-sūtras (atribuído a (Vātsyāyana - séc 3-4 d.C.),e o Dharma Śāstra (atribuído a Manu).


Artha - A busca pela segurança, ou da liberdade da sensação de insegurança


Repare que, nos três próximos pares de perguntas, a primeira, sempre exige uma ação. Enquanto a segunda, requer conhecimento.


A busca por segurança não é exclusivo do ser humano. É algo que partilhamos com todos os seres vivos. Antes de qualquer coisa que possamos buscar lá fora, no mundo, precisamos de um lugar para nos abrigarmos sempre que necessário.

Por isto, qualquer animal constrói uma toca, um ninho ou qualquer coisa do tipo. Para se proteger das intempéries, mas também de seus predadores.

Não é diferente com a gente. Por isto, todos acreditamos que a solução dos nossos problemas parece ser a aquisição de uma casa própria.


E, sabendo muito bem disto, a mídia sabe muito bem nos vender esta impressão de que todos os problemas estarão solucionados, assim que conquistarmos o nosso pedacinho de terra.


Acreditamos que um muro, paredes, telhados e fechaduras podem, definitivamente, nos proteger de todas as possibilidades de sinistros.


Mas, como estaríamos protegidos de um meteoro? Não há telhado que aguente! Portanto, é justo dizermos que não existe nenhum nível de segurança que possa me proteger de tudo. E, se eu apoio a minha satisfação, a minha felicidade naquilo que não pode se cumprir, estou condenado a me frustrar.


A questão é, que no final das contas, uma casa pode te trazer segurança, mas ela não tem a capacidade de te transformar em uma pessoa segura. Esta é a confusão. Eu exijo da casa, aquilo que ela não tem a capacidade de fazer.


Da mesma forma é a crença de que quanto mais dinheiro eu tenho, mais seguro sou. Será que isso procede? Quando estou caminhando pela rua sem nenhum tostão no bolso; dificilmente, me sinto inseguro. Porém, se estiver com uma bolada no bolso; automaticamente, me sinto inseguro, pois imagino que serei roubado. Portanto, dinheiro não é sinônimo de segurança. Muito menos, responsável por fazer de mim uma pessoa segura de si mesma.


Eu me sinto inseguro porque estou, demasiadamente, identificado com as minhas qualidades como indivíduo. Desde as características físicas, passando pelas intelectuais e emocionais; até aquilo que tenho ou deixo de ter como bens materiais.


Esta é a questão fundamental, abordada pelas Upaniṣads; e, principalmente por Śaṅkara: adhyāsa, a sobreposição. Tudo aquilo que eu penso ser, na realidade, não sou Eu. Esta confusão é a causa de todo o sofrimento.


É necessário, portanto, dissolver estas identificações, para que possamos enxergar aquilo que somos de verdade. Esta é um ponto fundamental que Patañjali irá abordar logo no início dos yogasūtras, quando ele define a palavra Yoga.


Então, eu preciso fazer a pergunta adequada: “Eu busco a segurança, ou a liberdade da sensação de insegurança acerca de mim mesmo?”


Kāma - O desejo por experiências agradáveis, ou a liberdade do sofrimento


Como disse anteriormente, ninguém afirma para si mesmo que nasceu para sofrer. Que deseja passar por experiências desagradáveis ao longo do seu dia, da sua vida. Portanto, todos os seres vivos desejam esta felicidade. Desejam viver estas experiências de prazer.


Porém, também é justo dizer, a partir das nossas experiências , que não existe uma vida inteiramente feliz. Em alguns momentos, existe o sofrimento. Um sofrimento de natureza relativa, efêmera, mas existe.


Um braço quebra, levamos um pé na bunda, perdemos um amigo ou parente querido.


Portanto é um fato de que a vida sempre será uma mistura de altos e baixos. De sofrimentos e prazeres. Por isto, seria inteligente, não esperarmos que uma vida seja feita de 100% de experiências agradáveis; senão, novamente, nos veremos frustrados.


Assim como no exemplo da casa, há uma confusão aqui também. Você está exigindo que experiências de felicidade sejam responsáveis por te tornar feliz. Você já é feliz, por natureza. A questão é que esta felicidade sobre a qual estamos falando, não é um sentimento ou experiência. É um reconhecimento de quem você é. Um entendimento de que você já é uma pessoa plena.


Kāma (o desejo) é a raíz dos pares de opostos: rāga e dveṣa.

Rāga é o esforço que é feito para conquistar aquilo que deseja e, manter aquilo que foi conquistado. Dveṣa está relacionado aquilo que você deseja evitar ou se livrar. Como colocado por Patañjali:


“Vṛttayaḥ pañcatayyaḥ kliṣṭākliṣṭāḥ” (YS 1;5)


Essas reações são oriundas de 5 tipos diferentes de experiências cognitivas da mente e, podem ser obstáculos ou não (para o autoconhecimento)


Existem estímulos que a mente recebe, que não causam nenhum tipo de reação que possa tirar a sua clareza e objetividade. Porém, existem outras que, certamente, o fazem.

É em cima delas que precisamos trabalhar para abrandá-las.

Abrandar os desejos é necessário para que não nos tornemos escravos deles. A compreensão de que eu não tenho a capacidade de escolher os resultados das coisas que faço é a chave para isso; conforme Kṛṣṇa ensina para Arjuna na Bhagavad Gītā.


Kāma é o desejo. O desejo de se aproximar daquilo que de seja e, de se afastar daquilo que não é agradável. Para isso, a pessoa fará aquilo que estiver ao alcance dela. Isso pode, realmente, transformar os desejos em inimigos. Os desejos não realizados, podem se transformar em raiva. Esta raiva, muitas vezes, pode fazer a pessoa agir de maneira imprópria ou equivocada.


Os desejos nunca parecem ser saciados completamente. Raramente, o desejo diz “basta!” Ele sempre retorna, assim como uma pessoa faminta; que mal engoliu a primeira garfada e já está enfiando outra na boca. Essa é a natureza dos desejos. Quando um se realiza; logo surge outro.


Na existência da ação movida pelo desejo, sempre haverá a noção do ator. Enquanto essa noção existe, não conseguimos enxergar a nós mesmos como testemunhas que somos. Por isso, Patañjali salienta, logo no início da sua obra, o valor de ter um comando sobre a mente (rāgas e dveṣas); para que seja possível enxergar a sua natureza. A natureza de simplesmente existir, independente de qualquer ação ou papel. Enquanto houver se ação, movida pelo resultado, haverá apego, ansiedade, raiva. Elementos com os quais nos identificamos com muita força. É necessário trazer a atitude de karma-yoga; ou seja, agir, pois existe há necessidade da ação e, não, o resultado.


Por isso, é difícil compreender a natureza dos desejos. Eles surgem de diferentes lugares e em diferentes situações e, muitas vezes nem estamos esperando por eles. Mas, existe a possibilidade de abrirmos mão deles quando compreendemos a nossa natureza plena e livre.

Para ser um renunciante é necessária uma maturidade e capacidade de contemplação. E isso não é uma escolha; algo que se conquista da noite para o dia. Por isso, é necessário adotar esse estilo de vida que é karma-yoga.


Para mokṣa é necessário reconhecer a si mesmo como a testemunha de tudo e, não mais como o ator. Quando descubro que sou livre, pois não há nada que esteja faltando em mim; os desejos tornam-se apenas acessórios. Portanto, posso ter desejos. O desejo não é o problema. O problema é o pensamento equivocado de que a realização dos desejos é que tornarão essa pessoa.

Portanto, a felicidade está nos resultados das ações, ou, a felicidade é aquilo que não exige esforço?


Aqui, a pergunta também deve ser corrigida: “Eu busco as experiências de felicidade, ou o entendimento de que a felicidade é natural para mim?”


Pois, a felicidade definitiva, vem do entendimento de que Eu sou livre do sofrimento.


Dharma - Por que buscamos mérito, reconhecimento ou autoaceitação?


A primeira parte do Veda, chamada de Karma Kāṇḍa, é bastante voltada para este tema: o que posso fazer agora, para alcançar tudo aquilo que desejo no futuro, e, até mesmo após esta vida?


Para isto: dharma. Dharma significa lei, aquilo que deve ser feito, o adequado. Até aí, tudo bem, nenhum espanto quanto ao fato de que esta deveria ser, sempre, a nossa conduta.


Mas dentro deste contexto do Karma Kāṇḍa, existe um elemento substancial, chamado de crença. As pessoas acreditavam que ao fazer determinados tipos de rituais, alcançariam, em algum momento da vida ou após a morte, o mérito por isto. A recompensa.


As suas ações não deveriam ser guiadas pelos resultados. Mas, sim, pelo próprio entendimento de agir da melhor forma possível.


O que você faz agora, não garante o que será recebido no futuro.


Aliás, a sua vida não é no futuro. A sua vida é agora.


Viver no futuro, ou, viver por recompensas, gera apenas ansiedade e frustração. Como dito nos mais à frente


Heyaṁ duḥkhamanāgatam (2;16)


"O sofrimento que ainda não existe, pode ser evitado”


Planejamentos para o futuro, objetivos mirabolantes podem, muitas vezes, podem interferir no curso das ações no presente. Podem tirar a clareza da pessoa, fazendo com que ela não entenda mais o que deve ser feito naquele momento. Uma pessoa que pensa, apenas, no futuro, pode comprometer o que está fazendo no presente. Tal pessoa, não tem a atitude de karma-yoga. Tal pessoa, parece, muito mais, alguém que age, simplesmente, pelo resultado que está no futuro.


Então, toda a ação estava focada no resultado, e não na ação em si mesma. Contrariando o grande ensinamento que apareceria, mais tarde, em uma composição chamada Bhagavad Gītā, que descreve o diálogo entre um aluno e um professor (Arjuna e Kṛṣṇa): “Ó, Arjuna! Você tem toda a capacidade de escolher a forma de agir, mas, quanto ao resultado da ação, não há escolha.”


Portanto, esperar por um resultado que, pode vir ou não da forma que você espera, de forma que ele seja o responsável pela sua felicidade, é partir com 50% de chance de frustração.

Isto, levando em conta apenas esta vida. Imagina se levássemos em conta o pós vida é uma especulação. Já que ninguém pode apresentar nenhum argumento sólido que ele exista.


Ou seja, se você apoia a sua felicidade no futuro, o máximo que vai conquistar, imediatamente, é ansiedade.


Expectativas que não se cumprem também se transformam em outro grande problema: a raiva. A expectativa se transforma em raiva quando não temos a capacidade de acomodarmos os acontecimentos como são.


Aqui também há uma confusão. Se falarmos do contexto do Karma Kāṇḍa, existe a idéia de barganha com Īśvara. Para isto, os rituais eram feitos. A busca do reconhecimento de deus, pelos seus esforços, na forma de puṇyam.


No contexto atual, estamos buscando o reconhecimento das pessoas, para que possamos nos libertar da sensação de que somos totalmente inadequados e inaceitáveis. E as pessoas à nossa volta, não têm a capacidade de fazer isto, porque já somos totalmente adequados e aceitáveis como somos.


O que você pensa em relação a si mesmo? Se você acredita ser aquilo que pensa em relação a si mesmo; está equivocado. Mais ainda, se você acredita ser o que os outros pensam sobre você; está mais equivocado ainda. Este equívoco precisa ser dissolvido. Não o que os outros pensam sobre você.


O que os outros pensam sobre você não deveria ser tão importante. Lembre-se da expressão “quem paga as suas contas, afinal?” Deixe os outros pensarem o que quiserem. Não é seu problema! Neste contexto, a Bhagavad Gītā, nos traz uma qualidade que quando desenvolvida nos liberta desta necessidade: amānitva; ou seja a ausência da necessidade de respeito/aprovação das outras pessoas.


Vamos revisar a pergunta aqui também: “Eu busco o reconhecimento das pessoas, ou o entendimento de que eu sou uma pessoa totalmente adequada e aceitável?”


Quando conquistamos alguma coisa, a sensação do sucesso traz uma euforia. Portanto, tendemos a olhar à nossa volta em busca de reconhecimento. Toda criança tem este desejo. Quando ela pula do alto de alguma coisa, a primeira coisa que faz é olhar para os seus pais em busca de aprovação. Ela quer que eles digam “Muito bem! Você é muito corajosa!” Ela deseja a aprovação e os aplausos. Para uma criança, isto é bastante saudável, para que ela desenvolva a autoconfiança. Quando esta aprovação não é conquistada na infância, ela ainda será perseguida na idade adulta.


Isto torna-se vaidade, Até certo ponto é saudável. Porém, neste contexto no qual desejamos nos despir de tudo aquilo que pensamos ser, para que o verdadeiro Ser possa ser visto, é contraproducente.


No fim das contas, essa busca por aceitação das outras pessoas, nada mais é do que a busca por autoaceitação. Autoaceitação pelos outros! Por que alguém deveria me aceitar? Para que eu me aceite.

Como eu não consigo aceitar a mim mesmo, busco a aceitação dos outros, para que aí, possa me aceitar. Qual o sentido disso?


Mokṣa puruṣārtha - A solução revolucionária das Upaniṣads


O sentido da palavra Upaniṣad


Geralmente, a palavra Upaniṣad é interpretada da seguinte forma: upa, próximo; ni, abaixo e sad sentar. Quando estas interpretações se juntam, a palavra Upaniṣad se refere a um conhecimento ganho ao sentar-se junto a um professor. Esta é uma interpretação possível. Mas o verdadeiro sentido da palavra é autoconhecimento, brahma-vidyā. A identificação do indivíduo com Brahman.


Há três elementos “upa-ni-ṣad” na palavra. Upa, de fato, significa sentar-se próximo (a alguém que detenha este conhecimento: o professor). Ni, é relativo ao aspirante, o aluno, que deve aproximar-se do professor com esta confiança e intenção forte e pura de aprender.


Não, apenas, as Upaniṣads, mas, a maior parte das composições sobre yoga, recomendam a presença de um professor para que haja sucesso. Seja o yoga como prática/disciplina, ou o yoga, como o entendimento da unidade entre o indivíduo e o Todo.


Sem a presença deste professor, não haverá sucesso e, pode, até mesmo ser perigoso. No sentido de que o aluno pode ferir-se com algum tipo de disciplina, ou, não compreenderá o que estas composições desejam, de fato, transmitir.


Talvez, esta seja uma das transformações mais significativas em relação ao yoga, ao longo dos tempos. Atualmente vemos, em todo o mundo, que a maior parte dos praticantes de yoga não criam nenhum tipo de laço mais próximo a seus professores; que, por sua vez, também não estão conectados com nenhum tipo de linhagem de ensinamento anterior a eles.


Sad é a palavra que surge do radical sad. Em sânscrito, um radical não é uma palavra. Cada palavra tem seu radical que traz o significado da palavra. Nomes e verbos geralmente são formados a partir destes radicais.


O radical sad tem três significados: viśāraṇa, desintegração; gamana, alcançar; e avasādana, destruição total. Sad desintegra algo. O que ele desintegra? Basicamente, ele desintegra tudo aquilo que você não quer na sua vida. Isto é chamado de anartha; ou a noção de concepção, nascimento, velhice, doenças, etc.


Isto não inclui a sua sogra, ela é apenas um nimitta, um incidente. A verdadeira causa da sua tristeza e sua incapacidade de lidar com ela são desintegradas pela Upaniṣad.



Por que chamar de revolucionária a proposta das Upaniṣads?


Porque, até aqui, o Veda apresenta uma visão dual do universo. Para o Karma Kāṇḍa, existe o ator, a ação e, o resultado da ação. Existe o ator e as suas responsabilidades, de acordo com a fase da vida que se está vivendo.


Porém, quando a pessoa compreende que a sua natureza e sat-cit-ānanda, as ações prescritas pelo Veda, não são mais necessárias. Pois, mokṣa não é algo a ser alcançado; porém, deve ser reconhecido como a nossa natureza.


Até esse ponto, o Veda fala, exclusivamente, sobre rituais, meditações, que têm a natureza dual. Somente a Upaniṣad vai afirmar “tat tvam asi”; ou seja tu és tudo o que existe.


A realidade do ātmā já é existente. Não é algo a ser criado, como um resultado de uma ação. Existir é a natureza do ātmā


Como diz a Iśā Upaniṣad: "Aqueles que reverenciam as ações estão em profunda escuridão. Mas aqueles que estão na mais profunda das escuridões, são aqueles engajados em upāsanas.” Ou seja, acreditar que brahman seja um objeto; algo limitado por nome e forma. Como veremos, mais à frente na citação da Kena Upaniṣad “Que seja sabido que aquilo sobre o qual as pessoas meditam, não é brahman.”


A Upaniṣad quer dizer que saber fazer todos os rituais, ou até mesmo fazer todos os tipos mais complexos de meditação não te trazem o entendimento sobre a sua própria natureza. Eles ajudam a preparar a mente, mas o resultado de uma ação nunca é conhecimento. Pois, o conhecimento do ātmā não é um resultado.


Mas, por que o Veda não me ensina isso logo de cara? Pois, existe valor na ação; como veremos mais à rente, no livro.


O Veda não me ensina isso logo de cara, pois precisamos estar prontos para entendermos tal ensinamento. Esse não é um assunto para se tratar na mesa de bar; principalmente, com pessoas que ainda não estão preparadas ou, não estão interessadas no assunto.


Por isso, existe valor na ação, nesse processo. Uma vida de karma-yoga é aquilo que irá preparar-nos.


O Veda encoraja a vida de karma yoga, pois ela produz antaḥkaraṇaśuddhi; ou seja, a purificação da mente, através dos papéis que desempenhamos todos os dias nas nossas vidas.


Existe uma interpretação equivocada do Veda sobre o estilo de vida que é mais exaltado. Esta dúvida aparece, explicitamente no diálogo entre Kṛṣṇa e Arjuna, na Bhagavad Gītā. Arjuna deseja que Kṛṣṇa o diga sobre o melhor estilo de vida a ser vivido para aqueles que desejam a liberdade. Kṛṣṇa diz que ambos são valiosos, cada um à sua maneira, dependendo da fase da vida de cada um.


Uma vida de karma-yoga está ligada à pessoas que precisam cumprir com seus deveres e responsabilidades; que não podem, simplesmente, renunciar.


Por isso, nem sempre devemos assumir que o Veda exalta a renúncia ou o ascetismo. O renunciante tem uma grande importância ao apontar para um estilo de vida no qual o desapego é muito bem compreendido. Porém, o Veda também enfatiza o papel de um gṛhasta. Desta pessoa que está envolvida com o mundano; que não o nega; valorizando o cumprimento dos papéis do dia a dia.


O Veda declara que o gṛhasta é o mais importante de todos. Pois, é ele que sustenta as outras etapas da vida. É ele que patrocina os estudos do brahmacarī. É ele que patrocina a execução dos rituais védicos; sustentando, assim a manutenção do dharma prescrito pelo Veda.


É um tema que se repetirá, algumas vezes, por aqui: faça o melhor que pode ser feito, sempre. Pois assim, estamos em paz com nós mesmos e, ao mesmo tempo, contribuímos com as nossas habilidades para o mundo. Além disto, o Veda encoraja a ação, pois pode ser a única ferramenta disponível para o amadurecimento de uma pessoa. No sentido de que, ao agir em consonância com aquilo que o Veda prescreve, a pessoa age conforme o dharma. Se até mesmo esta disciplina é subtraída, a pessoa pode acabar vivendo uma vida com uma conduta, totalmente, inadequada.


Sobre isto, o acadêmico, Julius Lipner, faz uma leitura bastante interessante sobre o significado de dharma:


“Ser devoto de 330 milhões de deuses não é Sanātana Dharma. Isto é um dharma inferior; mundano. O verdadeiro Sanātana dharma, aquilo que os estrangeiros chamam de hinduísmo - perdeu-se. O verdadeiro dharma consiste em conhecimento e, não, ação. Este conhecimento possui duas naturezas - externa e interna. A parte interna é a principal do Sanātana dharma. Porém, a menos que o conhecimento externo não desenvolva-se primeiro, o interno, não se desenvolverá. Enquanto não há o entendimento do denso, não haverá entendimento sobre o sutil.


Já faz bastante tempo que este conhecimento externo perdeu-se nestas terras; fazendo com que o verdadeiro Sanātana dharma, também, tenha se perdido. Se alguém desejar restaurar este Sanātana dharma, deve, primeiro tornar este conhecimento externo conhecido. Quando o nosso povo é bem instruído sobre o externo, estará pronto para compreender o interno. Então, não haverá mais obstáculos para disseminar o Sanātana dharma e, o verdadeiro dharma brilhará, por si mesmo, mais uma vez." (Lipner; 2205;229)


Ou seja, através daquilo que deve ser feito. No cumprimento das responsabilidades cotidianas (dharma), o indivíduo amadurece e torna a mente preparada para o entendimento daquilo que é o mais sutil; esta inteligência (dharma) que tudo rege, que é Īśvara.


O Veda fala sobre o paraíso, por exemplo. Uma especulação. Mas, ao falar sobre esse paraíso, encoraja as pessoas a fazerem o que é adequado e, assim, as distancia daquilo que é inadequado. Essa é a noção e o entendimento de dharma e adharma.


Uma vez que o dharma é respeitado, a habilidade de discernir entre o real e o efêmero vem em seguida. Esse respeito pelo dharma, nos torna imunes às nossas preferências e desejos.


Esse discernimento se manifesta quando começamos a fazer as perguntas adequadas sobre o quê é o que? Uma vez que esse discernimento se estabelece, naturalmente, nos inclinamos para o ensinamento das Upaniṣads.


A Bhagavad Gītā diz:


Yadā te mohakalilaṃ buddhirvatitariṣyati

Tadā gantāsi nirvedaṃ śrotravyasya śrutasya ca (BG 2;52)


"Quando o intelecto se liberta de toda a confusão, então, se conquista o desapego relativo aquilo que já foi escutado e, aquilo que ainda será escutado.”


Bāhyasparśeṣvaktātmā vindatyātmani yatsukham

Sa brahmayogayuktātmā sukhamakṣayamaśnute (BG 5;21)


Aquele cujo a mente não está presa aos sentidos e seus objetos, conquista a felicidade, que é o entendimento sobre si mesmo. Aquele cujo a mente está firme no entendimento de brahman, “conquista” a felicidade que não se desgasta ou se perde.


Nós acabamos de ver os puruṣārthas, ou seja, os objetivos que temos na vida, como seres humanos, apresentados pelo Veda.

O desejo por segurança, prazeres e reconhecimento. Tudo isso nos é dito, ao longo da vida, como objetivos que nos proporcionam a felicidade.


A primeira linha desse verso descreve o karma-yogī, que não conduz as suas ações, apenas, pelos seus desejos. A segunda linha descreve o sábio; aquele que tem o entendimento de brahman. Esse sábio, não reage aos objetos e situações com intensidade. Ele compreende que felicidade e tristeza são emoções. Ele é, naturalmente, feliz. Não é uma qualidade; é svarūpa.


Yasmānnodvijate loko lokānnodvijate ca yaḥ

Harṣāmarṣabhayodvegairmukto yaḥ sa ca me priyaḥ (BG 12;15)


Aquele que as pessoas não temem e, que não teme as pessoas; livre da euforia, intolerância, medo e ansiedade, é amado por Mim.


De fato, temos a experiência da felicidade quando alcançamos esses objetos. Mas, junto da felicidade, oriunda desses objetos, não podemos esquecer que o sofrimento vem no pacote.


O sábio é a pessoa sempre satisfeita em si mesma, pois tem a compreensão de que ela é o todo. Ela tem a compreensão do ensinamento tat tvam asi. De que tudo o que existe, não é diferente dela. Por isso, o sábio é considerado o maior dos devotos; pois, tem o entendimento de que não é diferente daquilo que ele é devoto.


Ye hi saṃsparśajā bhogā duḥkhayonaya eva te

Ādyantavantaḥ kaunteya na teṣu ramate budhaḥ (BG 5;22)


Os prazeres desfrutados do contato dos sentidos com os objetos desejados, são a única causa de todo o sofrimento. Esse sofrimento tem início e fim. Oh! Filho de Kuntī; o sábio não está preso nisso.


Por que o sofrimento vem no pacote? Porque essa felicidade é efêmera. Ela está atrelada ao objeto e, todo objeto tem um tempo de duração. Portanto, aquilo que existe hoje, certamente, deixará de existir amanhã. Ainda existe um outro agravante: mesmo que o objeto ainda exista; pode ser que a sua mente fica cansada dele. Além de que, houve um esforço para a conquista desse objeto. E, até mesmo o contato com esse objeto desejado, deve acontecer da maneira adequada. Você pode estar diante do seu prato favorito; mas, se ele estiver muito quente ao coloca-lo na boca, não será uma experiência agradável.


Essa ideia é expressada na Chāndogya Upaniṣad, sobre o fato de que aqueles que não conhecem a natureza do Ser, vivem uma vida de limitações:


atha ye anyathā ato viduḥ anya-rājānaḥ te kṣyyalokāḥ bhavanti. (7;25;2)


Aqueles que olham para si mesmos como diferentes de brahman, estão sujeitos à experiência do declínio.


Então, aquela felicidade, sustentada por um objeto, se dissolve, dando espaço àquela sensação de vazio, mais uma vez, que acaba em sofrimento.


ye ye kāmā durlabhā martyaloke sarvān kāmām̐śchandataḥ prārthayasva

imā rāmāḥ sarathāḥ satūryā na hīdṛśā lambhanīyā manuṣyaiḥ | ābhirmatprattābhiḥ paricārayasva naciketo maraṇaṁ mā’nuprākṣīḥ || Katha Upanisad 1;25 ||


Todas as coisas desejáveis, porém, difíceis de serem alcançadas. Peça tudo aquilo que lhe é agradável. Aqui estão mulheres, carruagens e instrumentos musicais, que não foram feitos por humanos. Você estará satisfeito com tudo isso que te ofereço. Por favor, Naciketas, não questione sobre o que existe além da morte.

śvobhāvā martyasya yadantakaitat sarveṁdriyāṇāṁ jarayaṁti tejaḥ |api sarvaṁ jīvitamalpameva tavaiva vāhāstava nṛtyagīte || Katha Upanisad 1;26 ||

Coisas efêmeras! Elas tiram o vigor do ser humano. Toda a vida é curta, de fato. Fique com seus veículos, músicas e danças.


A falta de discriminação é algo que faz com que a pessoa se dedique cada vez mais aos objetos do que a esse olhar relativo à ela mesma.


Embora as Upaniṣads me digam que o problema sou eu mesmo; continuo acreditando que esse problema está lá fora, em algum lugar. Eu culpo as estrelas.


Eu acredito que o problema está nos objetos que me cercam e, que portanto, me limitam. Quando, na verdade, o problema está na confusão instalada na minha mente.


Por isso, ao longo da vida, escutamos, várias vezes sobre problemas e soluções; meios e fins. Uma lista infindável de coisas à fazer agora e, mais tarde: “arrume um emprego estável, se case, tenha filhos, etc…”

E, certamente, ainda há coisa que serão ouvidas e, que serão colocadas como soluções finais para todos os seus problemas.


As Upaniṣads, então, nos apresentam essa proposta revolucionária; que é olharmos para nós mesmos como pessoas já completas e satisfeitas.


Isso é uma revolução interna e silenciosa. É uma mudança de perspectiva sobre as coisas; uma mudança sobre o entendimento de si mesmo.


É dito na Chāndogya Upaniṣad: ātmaiva idaṃ sarvam (7;25;2); ou seja, Tudo isso é o ātmā (Eu). Tudo o que existe no universo; o sol, a lua, as estrelas. O conhecido e o desconhecido. Nada disso está separado de Mim. Essa mesma Upaniṣad, também diz: ekam eva advitīyam (6;2;1); ou seja, só existe um, não precedido por um segundo


As Upaniṣads nos apresentam a ideia de que felicidade não é um objeto e, portanto, não é fruto de algo que possa ser feito pela gente, ou que tenha relação com os objetos à minha volta; com as condições e situações que vivencio. A felicidade não é quantitativa. A felicidade é inerente a todos nós.


A Taittirīya Upaniṣad diz: yato vāco nivartante aprāpya manasā saha (2;4); "aquilo do qual as palavras retornam, sem ter alcançado.” Tendo tentado e descoberto que não era possível; as palavras silenciam-se. Onde as palavras falham, a mente pode, ainda, apreciar certas coisas; como emoções. Porém, aqui, assim como as palavras, a mente, também retorna.


Para entender o ātmā, a mente precisa inverter o caminho. Quando ela vai na direção do ātmā, ela desaparece; no sentido de que a mente não é nada além de vṛttis e, o vṛtti a partir do qual o ātmā pode ser conhecido, não tem forma. Para compreendermos melhor esse exemplo, podemos recorrer a Patañjali:



Por isso, é dito por Kṛṣṇa, no início do quarto capítulo da Bhagavad Gītā que o Yoga é um grande segredo “uttamam rahasyam”. Mesmo que seja compartilhado centenas de vezes, se a pessoa não possui a maturidade necessária para o compreender; nada fará sentido. A felicidade abordada, aqui, só é compreendida por uma mente madura. Por isso, Kṛṣṇa recomenda tanto uma vida de karma-yoga; pois ela traz uma tranquilidade para a mente, que a torna capaz de compreender a paz que é a sua realidade.


Por exemplo, quando alguém faz aquilo que deve ser feito. Cumpre com as suas responsabilidades; acaba descobrindo uma satisfação nisso. Essa pessoa contribui para o todo. Isso é asteya, como explicado por Patañjali. Esse karma-yoga é bhakti; uma dedicação que vai além do próprio umbigo e, o entendimento de que não sou separado ou diferente do que me cerca. Isso é maturidade. Quando não fazemos, apenas, o que desejamos; mas, o que deve ser feito.


A realidade apresentada pelas Upaniṣads não é fácil de ser assimilada por aqueles que estão acostumados a pensar que são inúteis e limitados. Algo que eles ouvem de outras pessoas, constantemente.


Quando uma pessoa que pensa assim, escuta que é todo o conhecimento, plena e livre de limitações, arruma um novo problema; pois fica confusa.


Esse conhecimento, muitas vezes, é mal interpretado e, por isso permanece distante da maioria das pessoas. Seja pela falta de capacidade de transmiti-lo; ou a falta de capacidade a assimila-lo.


Nesse processo, esse conhecimento é alterado e, ganha ares de autoajuda; como dito por Kṛṣṇa “mahatā kālena yogo naṣṭaḥ”. Este yoga foi se perdendo ao longo do tempo.


Portanto, nem sempre o erudito do Veda é aquele que tem o conhecimento de brahman. Pode ser um ótimo recitador dos mantras, mas não compreende os seus significados.


Além disso, yoga e as Upaniṣads não são assuntos para serem abordados na mesa de um bar. É difícil fazer as pessoas compreenderem a profundidade e a beleza desses ensinamentos. Vejo muitos amigos frustrados, pois tentam levar esses temas para os seus amigos e não veem neles os mesmos brilhos nos olhos que nós temos, quando estamos ouvindo mais sobre isso.


O Veda, muitas vezes, traz uma linguagem bastante codificada, se assim podemos falar. Por isso, os comentários de Śaṅkara, se fazem tão necessários em composições como a Gītā, as Upaniṣads, etc. É imprescindível a compreensão de cada palavra dentro de um mantra ou um śloka para a plena compreensão da mensagem que está sendo transmitida.


Sendo assim, podemos compreender porque este ensinamento perdeu força dentro da própria Índia, com o florescer do budismo. Pois, esse conhecimento era acessado por poucos e, transmitido para poucos.


Por essa razão, sempre digo que nunca convide uma pessoa para uma aula de yoga ou advaita. Ela precisa estar preparada para ouvir e, precisa desejar ouvir.


 
 
 

Comentários


bottom of page